Planeta Verde

Covid-19: mais uma pandemia criada pela ação do homem, lamentam cientistas

Preservar a biodiversidade é um imperativo para a saúde no planeta. Foto: Animal aflito foge de um incêndio florestal em Chino, Califórnia, 27/10/2020. AFP - ROBYN BECK

Um grupo de especialistas chineses e da Organização Mundial da Saúde (OMS) acaba de encerrar uma missão na metrópole chinesa de Wuhan para tentar esclareceu as causas da pandemia de Covid-19. A força-tarefa conclui que “provavelmente” o Sars-Cov2 apareceu em um primeiro animal, depois em um segundo, antes de chegar ao homem – mas ainda não identificou exatamente quais foram os bichos, nem as circunstâncias do contágio. Entretanto, para os cientistas que estudam há décadas a chamada ecologia da saúde ou medicina ambiental, o surgimento do novo coronavírus foi tudo, menos uma surpresa.

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A repórter investigativa francesa, Marie-Monique Robin, especialista nos temas ambientais, entrevistou 62 autoridades neste tema. Eles estudam o impacto do meio ambiente nas doenças humanas, em diferentes partes do mundo. As entrevistas resultaram no livro La Fabrique des pandémies, préserver la biodiversité un impératif pour la santé planétaire (A Fábrica das Pandemias: preservar a biodiversidade é um imperativo para a saúde no planeta, em tradução livre), que acaba de ser lançado na França.

Capa do livro em francês, "A Fábrica das Pandemias: preservar a biodiversidade é um imperativo para a saúde no planeta." © Captura de tela

A jornalista contou ao programa C’est Pas du Vent, da RFI, que a cada conversa com um desses cientistas, ouvia a desolação de quem já sabia que a próxima pandemia era uma questão de tempo.

Repórter investigativa francesa Marie-Monique Robin © Wikipédia

"Eles não estão bem porque faz pelo menos 20 anos que eles alertam que o melhor antídoto para nos protegermos de uma pandemia grave é a proteção da biodiversidade”, afirma. "E eles não dizem simplesmente que é triste que os pássaros e os insetos estejam desaparecendo, que os pandas vão se extinguir. Eles colocam prazos e consequências concretas, mostram que a biodiversidade protege a nossa saúde.”

Ciclo do risco sanitário é conhecido há décadas

O ciclo de base dessa engrenagem é relativamente simples. O desmatamento das florestas, ambiente natural de milhões de espécies selvagens, leva à desregulação desses ecossistemas. O resultado é que animais que nunca deveriam estar em contato com o homem acabam se aproximando de zonas urbanas ou da cadeia de produção de alimentos destinados aos humanos. As mudanças climáticas, provocadas pela ação humana, intensificam o problema.

Pascal Boireau, diretor do laboratório animal da Anses (Agência Francesa de Segurança Sanitária Alimentar, Ambiental e do Trabalho) explica que o aparecimento do vírus nipah, no fim dos anos 1990, ilustra bem a dinâmica de bumerangue das zoonoses – o homem provoca um dano ao meio ambiente e, depois, sofre as consequências.

O vírus surgiu na Malásia, após anos de aumento do desmatamento para a abertura de áreas de cultivo agrícola e criação de animais, em especial porcos. Com menos florestas, o clima da região se ressecou e a ocorrência de incêndios se intensificou, causando êxodo dos animais silvestres.

Pascal Boireau, diretor do laboratório animal da Anses © Captura de tela

“As espécie de animais fogem, e os que voam levam vantagem. Os morcegos frugívoros têm a capacidade de percorrer centenas de quilômetros para escapar dos incêndios. Eles vão parar em outro lugar totalmente diferente para dormir e comer”, sublinha o especialista em segurança sanitária. "Foi assim que um vírus fatal para o homem foi parar nos porcos, criados logo embaixo das árvores de bambu onde os morcegos se refugiaram. Esse vírus causou algumas centenas de mortos na Malásia."

Os especialistas advertem que, em vez de enfrentar a essência do problema, a humanidade tem escolhido combater as consequências: desenvolveu uma vacina e medicamentos em tempo recorde contra a Covid-19, porém a destruição da natureza e do planeta só pioram.

"Alguns dizem: é simples, vamos atirar em todos os morcegos e exterminá-lo. Mas não é assim que funciona”, comenta Marie Monique Robin. "A solução seria pior do que o problema. No caso dos morcegos, precisamos deles para a polinização, eles também comem insetos que nos transmitem a malária. Ou seja, precisamos desses animais."

Mudança necessária de comportamento

Até que ponto a pandemia vai abrir os olhos sobre o impacto da crise ambiental na nossa saúde? Os cientistas demonstram ceticismo. Um exemplo: a maioria das pessoas não vê a hora de voltar a viajar como antes – sem se questionar sobre o ritmo frenético das viagens ter sido um fator crucial para acelerar a disseminação dos vírus nas últimas décadas, com a globalização. Em poucas horas, passageiros, produtos e animais vão de um ponto do planeta para o lado oposto, podendo levar consigo ameaças à saúde para aqueles que vivem no local de destino.

O biologista especialista em ecologia parasitária é um dos que conclui que a pandemia de Covid-19 simboliza o fracasso da humanidade no combate à degradação ambiental, seja pela ação direta nas florestas ou pelo modo de consumo das últimas gerações.

"Faz muitos anos que ecologistas como eu estudamos esse assunto e não somos ouvidos. E agora, estamos de novo nessa mesma sequência, que se repete sempre que temos uma crise”, lamenta o biologista. "Se observamos todas as crises sanitárias que tivemos, primeiro promovemos o isolamento, a quarentena. Quando há animais, abatemos a espécie em massa e isso nos leva a aumentar a biossegurança. Agora, estamos fazendo exatamente a mesma coisa para os humanos."

O biologista especialista em ecologia parasitária Serge Morand. Foto: Serge Morand em Chiang Rai (Tailândia) em 2017 © Arquivo Pessoal

Em meio a tantas desilusões, Morand ainda tem uma esperança: que a nova geração, a mais consciente sobre a crise ambiental, tomará as rédeas desse combate do homem contra si mesmo.